O mesmo número de nuggets no prato

Em tempos de pastores homofóbicos, racistas e preconceituosos, venho dividir com vocês a minha história.

Sou o primogênito, nascido em 1985 de parto normal, criado por um pai e uma mãe, ambos heterossexuais, assim como o meu irmão, um ano e meio mais novo. Fomos criados de forma igual. Minha mãe comprava roupas iguais para que não houvesse competição entre a gente. Já fomos inclusive confundidos com gêmeos. Se a gente bagunçava, levava bronca, e se isso não adiantasse, a gente apanhava. Já apanhei de cinta, levei beliscões, tapas… Tanto eu, quanto meu irmão.
Minha família nunca foi rica, mas comida nunca nos faltou. Brincava na rua, junto com tantas outras crianças, descalço, ralando joelho, arrancando a ponta do dedão, batendo a cabeça. Sobrevivi. Brincava com os poucos brinquedos que ganhava, mas que eram sempre tão bem cuidados que alguns, tenho até hoje. Brinquedos que me estimulavam a pensar. Brinquedos que juntavam as crianças da rua.
Tinha amigos brancos, negros, ricos, pobres, meninos e meninas. Tudo até aqui, foi igual pra mim e para o meu irmão. No entanto, havia brincadeiras que ele gostava mais e eu menos.
Mesmo jogando algumas vezes, nunca gostei de futebol, por exemplo. Não via diversão naquilo, entende? Preferia um jogo de tabuleiro, um jogo eletrônico, algo que eu pudesse usar mais a cabeça que o próprio corpo.
Sendo assim, acabei me aproximando mais das meninas, que tinham brincadeiras as quais eu me divertia muito mais. Foi então que eu comecei a ser diferenciado pelos meninos mais velhos. Pra mim, não tinha problema um menino gostar de coisas que – não sei quem inventou isso – eram de meninas e vice versa. Mas os mais velhos, que provavelmente passaram pelo mesmo, tentavam, de maneira um pouco agressiva, me mostrar que eu tinha que gostar das mesmas coisas que eles. Afastei-me mais ainda dos meninos.
Entrei cedo na escola, um ano adiantado. Sempre frequentei escolas públicas. Na minha cidade ainda não tinha escola particular, e mesmo que tivesse, meus pais não podiam pagar.
Fiz mais amigos, mais amigas. Os meninos eram chatos, me tratavam diferente, me chamavam de nomes que eu demorei a saber o que significavam.
Eu fui crescendo – não muito em tamanho, admito – e percebendo que alguns meninos eram bonitos. As meninas também, mas os meninos… Ah, eles tinham uma beleza diferente, que me chamava mais a atenção.
Mas depois de tudo que ouvi e passei com os meninos mais velhos, me proibi de ter esses pensamentos e jamais permitiria que alguém soubesse disso.
Minha vida na escola foi legal, mas conturbada. Me diverti muito, mas também fui muito apontado, xingado, humilhado, simplesmente porque preferia as coisas de menina, às de menino. Fingi que gostava de menina, do jeito que as pessoas esperassem que eu gostasse. Fingi para as pessoas e pra mim mesmo. Foram 18 anos vivendo uma farsa.
Aos 18 anos pude beijar o primeiro homem e ter certeza de que eles me atraíam muito mais que as mulheres.
Onde eu quero chegar: nada, e eu enfatizo, absolutamente nada do que meus pais fizeram pra mim, deixaram de fazer para o meu irmão. Sempre tivemos tudo igual, seja o número de nuggets no prato, as roupas e o amor de nossos pais. Meu irmão gosta de futebol, tem namorada, gosta de mulher e ainda assim, respeita e ama o irmão homossexual que tem. Meu irmão me defende quando falam de mim, fazem piada ou me deixam triste. Meus pais tanto não nos diferenciam, que a namorada do meu irmão frequenta a casa deles com a mesma liberdade que o meu namorado também o faz.
Meus pais me dão a mesma liberdade em casa, que dão para o meu irmão. Não há diferenças entre nós em casa, somos uma família, cada um com sua personalidade, e respeitamos um ao outro, sem impor nossas vontades, ideias e caprichos. E isso se espelha fora de nossa casa, com outras pessoas que convivemos.
Eu não escolhi um dia começar a gostar de homens, assim como meu irmão não escolheu gostar de mulher. A única diferença é que, a heterossexualidade dele é aceita e imposta como normal pela sociedade. Minha homossexualidade, não.

2 responses to “O mesmo número de nuggets no prato

  1. Adorei o texto e confesso que é difícil ter que falar que você é corajoso. Porque ser assim considerado somente pelo fato de se aceitar é um insulto. Espero que você tenha o futuro brilhante que deseja e possa lutar por ele como qualquer um. Um beijão!!

    • Muito obrigado pelas palavras e votos. Quero poder deixar este mundo com a sensação de missão cumprida e dizer “eu fiz minha parte por um mundo melhor”🙂
      Beijo grande!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s