O politicamente (in)correto

Você já parou pra pensar no alcance que a internet tem? Já pensou que o que você postou de seu computador em uma cidadezinha do interior de São Paulo, pode ser lido por alguém lá da Iugoslávia?
A internet tem sido um veículo muito importante para a propagação de ideias e interesses, atingindo diversas cabeças pensantes. E como já vimos por aí, nem sempre é bom para “os grandes” que haja um número maior de cabeças que pensam.

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(foto: divulgação/Estadão)

Vamos ilustrar com o exemplo da pequena Isadora, uma garotinha de apenas 13 anos, que criou uma página no Facebook chamada Diário de Classe, onde ela mostra para o mundo a decadência de uma escola pública em Florianópolis. A coisa tomou grandes proporções, já que ela tocou na ferida inflamada. Mexeu com gente grande. E quer coisa pior para um governo do que mostrar aos que não enxergam, aquilo que os impede de ver à frente? Isadora não tinha ideia do que estava prestes a construir. No princípio era apenas uma maneira de sensibilizar a prefeitura, mas a pobrezinha não imaginava que estava mexendo em ninho de vespas.

Sua página teve logo milhares de “curtir” e diversas mensagens de apoio. Apoio de pessoas de longe, pessoas que não tinham qualquer ligação direta com seu caso.

E quanto às pessoas que faziam parte dos mesmos problemas que Isadora enfrentava? Isadora queria apenas o que era seu por direito: educação de qualidade. Não só qualidade acadêmica, mas no mínimo boas condições de infraestrutura.

Bem, alguns amigos se afastaram de Isadora, e outros professores a criticaram. O caso foi parar na direção da escola e repercutiu de uma maneira negativa, como se o que Isadora tivesse fazendo fosse errado. Professores começaram a atacar a garota direta e indiretamente, como uma professora de português, que decidiu falar sobre política e internet e ensinou que “ninguém podia falar da vida dos professores”. A diretora avisou como quem não quer nada, que quem mexe com todo mundo tem de aguentar as consequências, quando a menina se recusou a tirar a página do ar.

Mas o que há de errado em gritar para o mundo o que é direito dela? Esses professores não tinham que apoiar Isadora, já que ela quer algo bom para todos, e diverge da massa criada à base de “compre, use, beba, vote”? Uma massa que não se importa com o próximo, e nem em lutar por um país melhor?

Isadora levantou uma bandeira pesada, e precisa de apoio para mantê-la de pé. Mas nota-se que quem está perto tem medo de não aguentar o peso do mastro, e prefere deixar que ela o derrube sozinha. Tsc… Ta tudo errado!

Certa vez escrevi um texto sobre a minha cidade natal, onde apontava o descaso político com a pequena cidade do interior que não prospera e só afunda. O texto teve mais de 50 “curtir” em menos de 10 minutos. Várias pessoas vieram comentar sobre a minha coragem em escrever aquilo tudo que eles sempre quiseram dizer. Como de se esperar, “os grandes” tomaram conhecimento do texto e logo minha família começou a sofrer ameaças indiretamente, e a pedido de minha mãe acabei tirando o texto do ar. Meu irmão veio conversar comigo e na pequena cidade só se falava do que o “filho do fulano” tinha escrito no Facebook. Eu tinha acendido a brasa, agora precisava de mais pessoas para fazer aquilo pegar fogo, mas o medo do coronelismo tomou conta dos envolvidos, e logo cheguei à conclusão de que não poderia lutar sozinho, sem o apoio dos mais interessados (que na verdade nem estavam tão interessados assim).

Mais uma eleição se aproxima, candidatos compram votos, pessoas carentes de informação e necessidades básicas se vendem por uma conta paga, e assim mais um político corrupto é eleito em diversas cidades do Brasil. Reclamar? Fica pra depois do carnaval.

Mas é vendo pessoas como a pequena Isadora que ainda acredito que esse mundo tem jeito. Que apesar de poucos, alguns querem sim mudar o mundo para melhor, porque como está não pode ficar.

E se você quer mudar o mundo põe o de-do a-qui, que já vai fe-char…

“Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.”
Rubem Alves

Conheça o caso de Isadora aqui.

3 responses to “O politicamente (in)correto

  1. Ao ler o seu texto, lembrei da época que minha família e eu chegamos na cidade de Gravatá-PE. Como uma típica cidade do interior pernambucano à época, Gravatá estava mergulhada em conceitos ultrapassados, que resultavam no mais alto grau de coronelismo. Os políticos tratavam o poder público como uma capitania hereditária, e a população não fazia nada para mudar. Meus pais tiveram muita coragem na época, ao desafiar todos que estavam no comando, provocando um pensamento revolucionista na população da cidade. Assim, foi eleito o primeiro prefeito do partido o qual fazemos parte, e que conseguiu realmente mudar o trato com a coisa pública. Muitos e muitos anos se passaram, e hoje a cidade está da mesma forma: as pessoas não tem ideia do poder contido no voto, e hesitam utilizá-lo. Muitas vezes desanimo, mas acredito nos poucos bons, os quais vale a pena lutar.

  2. A Isadora virou um modelo de bom uso da internet, uma pena que as pessoas adultas não consigam ter metade da consciência dessa pequena grande garota.

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